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Um herói: Padre Joaquim Ferreira da Silva

Maio 16, 2008

Este post demorou aqui a aparecer por dificuldades a nível de tempo, mas mais vale tarde do que nunca, afinal foi este herói quem me baptizou🙂 Uma pessoa que marcou a sua comunidade e transmitiu grandes lições de vida.

Passados 45 anos, o padre Joaquim Ferreira da Silva, capelão do campo de concentração em Pondá, foi louvado a título póstumo, com a Medalha Militar de Serviços distintos, grau ouro, com palma.

Mas estão-se a perguntar o que este jesuíta fez de tão louvável para merecer tal. Aqui fica a transcrição do sucedido:

“Os acontecimentos reportam-se a 1962 e ao campo de concentração de Pondá, onde estiveram presos durante largos meses cerca de 1750 militares e civis, na sequência da invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana. O episódio em causa foi presenciado pela quase totalidade dos prisioneiros e viria a ser relatado por um dos oficiais que ali esteve detido. Foi no livro ‘A Queda da Índia Portuguesa. Crónica da Invasão e do Cativeiro’ (Estampa), que o coronel Carlos Alexandre de Morais descreveu o sucedido no dia 19 de Março de 1962, e que poderia ter redundado num massacre.
Tudo começou com uma tentativa de fuga por parte de três prisioneiros, que procuraram evadir-se no meio do lixo transportado pela camioneta que todos os dias fazia a limpeza do campo. Quando a viatura se preparava para transpor a porta de armas, um furriel – que Carlos de Morais não nomeia -, denunciou a tentativa de fuga ao comando indiano. Dois dos três fugitivos foram imediatamente detidos, mas o terceiro escapuliu, misturando-se com “a multidão de prisioneiros que acorreu ao local”. Ao mesmo tempo, o delator, identificado pelos restantes prisioneiros, teve que ser retirado do campo pelos militares indianos, para evitar um provável linchamento. Um major indiano avisou então que, caso se repetisse uma tentativa de evasão, não hesitaria em fuzilar os seus autores – o que mereceu um protesto de um dos oficiais portugueses mais graduados, invocando a Convenção de Genebra.
O caso parecia sanado, até à chegada do brigadeiro Sagat Singh, comandante-geral dos Campos de Prisioneiros de Goa. Mandou formar os prisioneiros, enquanto montava em seu redor todo um aparato bélico: metralhadoras, bazucas, morteiros. E, em frente da porta de armas, um ameaçador pelotão armado. Foi ainda a quente que o padre Ferreira da Silva descreveu os acontecimentos de que foi o principal protagonista, num artigo publicado na revista ‘Magnificat’, em 1962. Conta o jesuíta (à época, tenente capelão de Pondá) que o brigadeiro “mandou formar os soldados e perguntou se alguém queria castigar o delator. Ao contrário do que esperava, os rapazes responderam em coro: “Todos!” O homem ia indo aos arames. Mandou perguntar se tinham entendido bem. E a resposta foi igual: “Todos!” Manda então preparar o pelotão de fuzilamento e carregar as metralhadoras. Perante o risco iminente de uma carnificina, o ex-missionário saiu da formatura e dirigiu-se ao brigadeiro. “Pedi licença para falar e perguntei-lhe se, como capelão, desejava que dissesse alguma coisa aos homens. Mas a resposta foi seca: “Não! É demasiado tarde! É preciso dar uma lição a todos”. Insisti, pedindo que desse aos homens uma oportunidade. Negou novamente, perguntando se tínhamos sido alguma vez maltratados. Respondi que não, mas que já tínhamos sofrido bastante para merecermos que nos fosse dada uma oportunidade. Disse outro não muito seco e, voltando-se para trás, mandou avançar o pelotão de fuzilamento. Lancei então o último pedido desesperado, convencido da sua inutilidade: ‘Senhor, dê-nos uma oportunidade. É a primeira. Nunca teve razão séria de queixa. Por favor, dê-nos uma oportunidade’. ‘Está bem’ – respondeu – ‘mas diga-lhes que será a última’”. O brigadeiro indiano exigiu então um pedido de desculpas. O sacerdote dirigiu-se aos presos: “Rapazes, o sr. brigadeiro quer ouvir uma palavra de desculpa. Depois de a pedirem em coro, o brigadeiro deu-se por satisfeito. Agradeci, saudei e afastei-me. A tempestade terminara”.”

José Pedro Castanheira

Visitem o blog Penso Visual para saberem informações mais detalhadas.😉

3 comentários

  1. olá, pensei que te ias esquecer.
    Desafio : procura fotos do Padre Joaquim para fazermos um blogagem colectiva de Homenagem mais pessoal. O resto da malta ( Fátima, Lena)deve ter fotos que nos podem ceder, não achas?
    Que tal a ideia, alinhas?
    Bjs


  2. Eu nunca me esqueço. Posso é demorar a dar notícias :$ E agora ainda mais um cadito porque se arranjou nova escola🙂
    Quanto às fotos, vou tentar coleccioná-las no feriado ou no fim-de-semana. Aqui por casa devem andar algumas😉


  3. Um verdadeiro heroi, o meu pai foi um dos prisioneiros que beneficiou da coragem do padre Joaquim.



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